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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Momentos de reflexão de um aposentado

Estatuto social do aposentado

Uma das coisas que o ainda Director de Serviços Meireles previu, ao aposentar-se, foi que o seu estatuto socioprofissional terminaria ali. Tinha perfeita consciência disso mas não imaginou que a realidade fosse ainda mais dura. O exemplo flagrante vem da Caixa Geral de Aposentações que, fazendo tábua rasa da lei, não indicou o cargo que o Augusto Meireles exercia no activo, ao publicar a lista de aposentados no Diário da República e devia tê-lo indicado, segundo a lei, que assim dispõe:
O aposentado, além de titular do direito à pensão de aposentação, continua vinculado à função pública, conservando os títulos e a categoria do cargo que exercia e os direitos e deveres que não dependam da situação de actividade (art. 74º Decreto-Lei n.º 498/72, de 9 de Dezembro)!
No cartão de Identidade do funcionário no activo vem a fotografia, o número, nome e categoria ou cargo, como parece normal. No cartão de pensionista, consta o seu número, a data do início da pensão, o nome do titular e a data do nascimento. Quanto a categoria ou cargo é omisso: aliás, não existe sequer campo reservado para o efeito. Desconhece-se qual terá sido a intenção dos seus mentores. Mas se a intenção foi dar tratamento igualitário a todos os funcionários - sem distinção de categorias ou cargos - parece não fazer sentido, a menos que, por absurdo, o valor das pensões fossem também iguais para todos! Segundo um dos princípios de justiça e regra de ouro em Direito, é de que se deve tratar igual o que é igual e diferentemente o que é diferente.
Anonimato
O anonimato é uma forma de irresponsabilidade que não contribui em nada para o desenvolvimento e progresso de um País - bem pelo contrário -, é pela identificação dos seus recursos humanos, formação e valorização profissional, académica e curricular que se avalia o grau da sua riqueza. Trata-se pois de uma escala de valores ético-profissionais, relativos e não absolutos, que não deve ser confundível com a dimensão dos princípios humanos. Aqui sim, os princípios e os valores humanos são absolutos e devem ser reconhecidos como tais; assim como o direito à vida, por exemplo. Não há mais nem menos direito para este ou para aquele, ele é igual para toda a gente… Sabe-se, infelizmente, que em matéria de direitos humanos estes são constantemente violados e aqueles que os deviam denunciar e condenarem se calam a maior parte das vezes: Governos e a Comunidade Internacional. Este é um assunto que merece uma reflexão mais aprofundada.

Qual é a sua profissão?
Quando, por exemplo, alguém se dirige a uma Agência de Viagens para marcar uma passagem, a um Centro Saúde para marcar uma consulta ou exame, pela primeira vez, as autoridades policiais para apresentar uma queixa, a um banco para efectuar uma transacção comercial, é costume pedirem a identificação da pessoa interessada (geralmente, mediante a exibição do B.I.), e a morada. Finalmente, a pergunta sacramental: Qual é a sua profissão?
O Augusto Meireles, quando no activo, respondia de três formas diferentes, dependendo da disposição do momento ou das entidades que o interpelavam:
a) Sou Jurista; ou
b) Sou Funcionário público; ou
c) Sou Director de serviços na Administração Pública ou Segurança Social.
A primeira resposta era aquela que lhe parecia mais adequada ao significado da palavra profissão. A resposta de Funcionário Público não é nada…ou melhor, é a afirmação de alguém que está vinculado a Administração Pública mas que não pretende revelar o que lá faz nem qual a sua categoria ou cargo. Claro que a indefinição do termo é um refúgio para alguns e uma forma de anonimato para outros, na medida em que a escala hierárquica do funcionário público vai do auxiliar administrativo (antigo contínuo) até ao Director-Geral. Mesmo assim, nunca ninguém o questionou por isso! Finalmente, em algumas ocasiões, lá dizia que era director de serviços. Não se trata propriamente de uma profissão mas de um cargo; de uma posição, de um estatuto social…
Mas agora que Augusto Meireles passou a situação de pensionista, como tem sido? Nada fácil para ele. As duas últimas respostas que dava quando estava no activo já não as pode dar no presente; a menos que utilize o substantivo «antigo» ou o prefixo «ex»: antigo ou ex-funcionário público, antigo ou ex-director de serviços. Não cola nada bem neste contexto, convenhamos. Além do mais, referem-se a situações passadas e não presentes. Restam agora duas opções: dizer que é jurista ou aposentado. Prefere a primeira, mas lá vai engolindo a segunda… E quando lhe perguntam a idade? – Responde de forma correcta, obviamente. Só que lhe dá a impressão que essa pergunta é feita só para o chatear; para lhe lembrarem que já não é nenhum jovem… Há tempos, quando fora ao cinema com a sua mulher, a jovem empregada da bilheteira quis saber a sua idade porque - a título de informação – poderia ter uma redução no preço de compra do bilhete... Era o que faltava! Associarem-no a terceira idade sem ainda lá ter chegado, embora bem perto dela! Talvez seja uma parvoíce ou talvez não… O facto, é que a sua tia Zulmira - uma pessoa bem-disposta e com graça, apesar dos seus de oitenta e picos anos - diz sempre que não gosta nada de se «misturar» com os velhos, de passear ou ir a excursões com eles. São uns chatos, falam muito, têm a mania que sabem tudo e não dizem nada de jeito! - Sabes, sobrinho, gosto é de andar com a malta nova: é outra coisa, é alegria, mesmo quando nos dão cabo da cabeça, como é o caso dos meus netos. Mas eu gosto disso, homem! Não achas que é assim? – Meireles, aquiesce e concorda – acho sim, tia…

domingo, 21 de dezembro de 2008

Momentos de reflexão de um aposentado

Percurso e aposentação

Augusto Meireles, acompanhou e fez parte desse percurso; mas agora não se preocupa mais com os serviços nem com as resoluções dos seus problemas: as questões da redução dos efectivos de pessoal causado pelas aposentações; a formação profissional e o congelamento de admissões; as classificações de serviço e as reuniões; os estudos, os relatórios e os pareceres; as análises e as discussões estatísticas, etc., etc. … Estava naquela situação que voluntaria e amargamente escolhera: Sair! Reunia os requisitos de tempo de serviço e de idade, para quê esperar por mais? - Para quê repetir tudo do princípio aos novos dirigentes, vezes sem conta, sempre que o poder político os nomeava? E eram sempre nomeados, e eram sempre exonerados, os titulares de órgãos directivos dos serviços da Administração Pública do Estado. O seu critério infalível (prevalente, exclusivo e único): o da fidelidade político-partidária. E a capacidade, e a experiência e a competência não eram avaliadas; os resultados do exercício no cargo também não, porque politicamente irrelevantes.
Os nomeados já não eram oriundos dos Quadros das Instituições de Segurança Social. Já não vinham animados dos valores socioculturais da Instituição. Já não sentiam por isso aquela força necessária para gerir projectos, apoiar e liderar equipas. O amor a camisola um mito …
O facto é que Meireles optou pela aposentação. As consequências dessa soberana opção viriam depois. No imediato, iria descansar; tirar umas merecidas férias – umas férias sabáticas - viajar e passear. Depois, depois… Logo se verá o que acontece. E Aconteceu: os seus planos de leituras – literatura, poesia, romances e história, falharam em grande parte. O estudo de conhecimentos sobre pintura, história da arte e da música ficou pelo caminho; a reaprendizagem do Inglês caiu; as visitas culturais aos museus não se concretizaram; os números de espectáculos assistidos foram poucos; as idas ao cinema assim-assim.
Augusto Meireles já se aposentou há dois anos e interroga-se sobre o que anda a fazer, além dos encontros com amigos de longa data: Camaradas militares que não via há mais de 40 anos e outros amigos do bairro de infância.
Ocupação

Ocupação é um termo que não gosta de usar porque traduz a ideia que não tem nada que fazer. Nada que fazer de útil, entenda-se! – Mas a verdade é essa…
Eis naquilo em que o Augusto Meireles se ocupa:
Abre diariamente o computador;
Consulta os emails;
Envia e reencaminha os «sites» que julga interessantes aos amigos;
Navega na internet e faz pesquisas. Algumas interessantes, outras nem interessam contar…
Faz download de imagens, áudios e vídeos.
Cria álbuns com fotografias de familiares e amigos;
Organiza pastas e ficheiros.
Resumindo, diverte-se e brinca - corrige e diz que trabalha -, diariamente com o seu PC portátil. Tem muito tempo e às vezes parece que lhe falta … Outras, parece-lhe um desperdício o tempo gasto que devia poupar!
No passado, sempre trabalhou por conta de outrem. Nunca teve habilidade para exercer actividade por conta própria e muito menos formar negócio. Exercer a profissão de advocacia também não. Meireles formara-se em Direito quando ainda era oficial administrativo numa Caixa de Previdência e Abono de Família em Lisboa, no início dos anos 80. Concluiu o estágio de advogado e foi-lhe conferida a carteira profissional pela respectiva Ordem. A magistratura seria outra opção mas não aconteceu e acabou por prosseguir a carreira profissional de funcionário público: administrativo, técnico Jurista e dirigente. Foi fazendo carreira assim.
Balanço de vida
Agora que está aposentado, interroga-se sobre o que fez de importante na vida além da formatura em Direito na Faculdade de Direito de Lisboa – como acha bem precisar - e de ter contribuído para a criação dos filhos. Trabalhar? – Sim. Mas isso é o que toda gente faz ou devia fazer: nada de mais! Trabalhar e estudar, com o objectivo de ascender profissionalmente e melhorar o padrão de vida pessoal e familiar, já foi um pouco além! Fora isso - e mesmo assim, com alguns erros de percurso - nada de relevante! Nada que conste para a História, que se relacione com as artes, humanidades, ciência, religião ou política. Nunca escreveu e muito menos se notabilizou em qualquer obra de literária, música, teatro, pintura, arquitectura, escultura, história. Não produziu nenhuma obra até aqui… não será também provável que a venha a produzir depois dos sessenta anos de idade. Não por falta de tempo mas de talento!
Mas há outros valores que são objecto de interrogações e de dúvidas permanentes: O indivíduo e a sua ligação com meio, a natureza e a metafísica.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Momentos de reflexão de um aposentado

Instituições de Segurança Social
Foi preciso chegar à fase da reforma, aos 60 anos de idade, para não saber o que fazer da vida! Até então, Augusto Meireles pensava no trabalho e nas actividades que desenvolvia como técnico, mais tarde dirigente, na Administração Pública. Desempenhava as suas funções com entusiasmo e aplicava-se a fundo no que fazia; por vezes, sobressaltava-o o desânimo e o stress rondava, mas a vontade e a paixão - diria hoje, tola e exacerbada - faziam-no prosseguir os objectivos pretendidos.
Agora, já não tinha mais aquelas obrigações, nem as preocupações permanentes com o pessoal da sua Direcção de Serviços. Pessoal esse que manifestava já o cansaço dos anos - e eram muitos - ao serviço daquela Instituição e dos seus beneficiários. Pessoal, maioritariamente formado por mulheres, que ainda muito jovens tiveram o seu primeiro e único emprego na Previdência Social. Casaram, algumas com colegas de profissão, e de caminho tiveram os filhos; partilharam com os colegas a graça e o sorriso dos seus rebentos em fotos de um sonho sonhado na força da vida. Viveram vários períodos de transformações sociais e políticas, sobretudo a partir de 25 de Abril de 1974, com a integração das Caixas de Previdência no sistema de segurança social unificado, como mandava a Constituição de 1976. Assistiram e participaram activamente das mudanças operadas com a evolução do sistema de Segurança Social: desde as alterações das leis orgânicas - cada vez que havia mudança política no Governo – a legislação produzida na área dos regimes e prestações sociais; às novas Leis de Base do Sistema; a criação e modificação de taxas sociais; aos novos métodos de cálculo dos subsídios e pensões; as directrizes políticas emanadas dos órgãos directivos; as Portarias, as Circulares, as Deliberações, os Despachos, os pedidos de esclarecimentos - interpretativos e aplicativos - e a falta de pessoal, sempre recorrente...
À medida que os anos foram remoendo o passado (simultaneamente tão perto e tão distante…), foi ficando para trás as lembranças e as sobras dos sonhos guardados em memória. Os verbos deixaram de se conjugar no futuro, como outrora, dando lugar a um presente coadjuvado pelo pretérito. O percurso profissional dos curricula vitae já não cabia numa folha A-4 e os primitivos originais, arquivados em pastas dedilhadas duma vida, contavam parte da história. As madeixas brancas, no cabelo de mulher pintadas de madura antes de tempo, já não são mais verdadeiras; a sua maquilhagem afaga ternamente a ruga do tempo. Já não sobem as escadas apressadas e de pé ligeiro como antes. Os elevadores, cansados da espera, aguardam a sua vez entre o intervalo de um cumprimento e o sorriso de um colega! As fotografias dos filhos não circulam mais entre colegas e secções. Agora são os netos, em posters coloridos ou emolduradas em sofisticados telemóveis. Sim, os filhos já perderam a sua vez: há muito que cresceram e tornaram-se adultos; deixaram de ir a Escola e de terem notas... Saíram de casa, casaram ou vivem juntos; fizeram-se pais e mães!

Os putos

Não há muito para se dizer sobre esta foto - a não ser a identificação das figuras - que data de 1962. A foto foi tirada na Escola de Fuzileiros de Vale de Zebro da parte de trás das instalações junto ao rio. Creio que estávamos todos ainda na fase da recruta. O moço da esquerda é o Guilherme (16341) e o da direita o Álvaro (16291).
O Guilherme seguiu com a Companhia nº 2 para Moçambique e o Álvaro para Angola no DEF4. Só nos voltamos a encontrar em 10/11/2206, durante as cerimónias da partida do 1º Destacamento de Fuzileiros Especiais para Angola (45 anos). Naquele mesmo evento foi apresentado os IV volumes do Livro da autoria de Sanches Baêna, Capitão-de Fragata FZE, intitulado FUZILEIROS – Factos e Feitos na Guerra de África – 1961/1974.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Uma vez fuzileiro...

Até o Mix se redimiu. Neste último encontro do DFE-4, em Abril do corrente ano, tivemos a grata presença do Mix que já foi objecto de tratamento especial neste blogue. Era o Mix bem mais jovem e com todas as suas loucuras. Não sei se ainda lhe restam algumas…Porém, fiquei admirado quando o vi na Escola de Fuzileiros agarrado ao estandarte do 4º Destacamento. Foi ele que depois transportou o guião até ao Monumento do Fuzileiro.
Quando estive a conversa com ele apercebi-me, com espanto mas com amizade, do seu espírito conservador, mesmo em defesa de uma política antiga… Quem diria! Ah, grande Mix!..















Almada e Mix ( Santo António do Zaire 1963/65)


O Mix que fazia parte da mesma esquadra do Almada.














Ludgero Santos (Piçarra), Cmdte Pascoal Rodrigues, Almada e

Mário Manso da Associação de Fuzileiros (5 de Abril de 2008)

Ainda o Ten Patrício!


Tenente Patrício

No último número da revista «Desembarque» veio publicada uma entrevista com o Tenente Patrício. Não existe fuzileiro que não saiba quem é este homem. Teve grande influência na maioria das vidas de todos os mancebos que se apresentaram à inspecção no Corpo de Marinheiros, em Março de 1962. Ser fuzileiro ou não era decisão sua. Enviava cada um que lhe punham à frente para Vila Franca ou Vale de Zebro a seu bel-prazer. Tanto valia a gente dizer-lhe que sim como não, a decisão era dele. Espero que consigam ampliar e ler este extracto da entrevista.
Na biografia que podem ler na entrevista abaixo não é mencionada a actividade desenvolvida pelo comandante Patrício nos anos de 1965 e 1966. Foi o período em que esteve em Moçambique como comandante da CF6 que rendeu a CF2 em Março de 1965.

O Almada

Carlos Alberto Nunes Ferreira, nº 15 555, o Almada, é fuzileiro especial de raiz. Refere sempre isso com orgulho porque fez parte do 1º Curso dado na Escola de Fuzileiros em Vale de Zebro. Frequenta depois um 2.º curso, ainda com o Comandante Pascoal Rodrigues, e integra o 4º Destacamento que vai para Angola. Quando regressou a Lisboa e à Escola de Vale de Zebro foi nomeado instrutor dos fuzileiros. Para o Almada era de facto a carreira de militar e de fuzileiro que gostava e desejava seguir na vida. Mas também tinha outros amores: as mulheres! Uma delas levou-o ao matrimónio e para tal teve que abandonar a Marinha porque não lhe foi dado autorização para casar. Era assim os regulamentos da época…
Foi depois como civil para Angola. Trabalhou numa grande empresa, desempenhando com êxito cargos de chefia.
Depois do 25 de Abril regressou a Portugal, ao serviço da mesma multinacional, até que constituiu a sua própria empresa com um grande sucesso. Essa é uma história que o Almada contará, de forma romanceada, qualquer dia!
Mas é do Almada que adorava comer batatas fritas, sorridente, bem-disposto e vaidoso, de ontem e de hoje, que dedicarei estas linhas. Do Almada homem de acção, de um verdadeiro líder, mas também de uma grande generosidade e de sentimentos. Do Almada que não tem vergonha da vida nem dos tempos difíceis por que passou e que continua a olhar o futuro de frente e com esperança. Do Almada que nos reuniu a todos e que graças a ele foi possível restabelecermos os contactos e as amizades entre filhos da escola e camaradas da nossa juventude. Do Almada amigo e com quem se está com prazer e com alegria de viver. Reconhecer-lhe esse mérito e capacidade é não só justo como fica bem a qualquer amigo.
Álvaro

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Os amigos que já partiram…

Não sei bem como abordar este tema relativamente aos antigos camaradas e amigos que já partiram, mas sinto que o deva fazer. Talvez por solidariedade, por termos convivido juntos e estarmos militarmente envolvidos na Guerra do Ultramar; talvez porque as famílias sintam as suas ausências e mereçam mais do ninguém serem lembradas. Talvez ainda porque nós sobrevivemos e eles não!
Estes companheiros morreram ainda bastante jovens e em Campanha. Outros, faleceram quando chegou a hora...
Muitos mais companheiros existem para além das fotos aqui reproduzidas em imagens de vídeo (DFE-4). Companheiros da classe da Marinha e dos Fuzileiros (este é um espaço que pode ser aproveitado para a sua divulgação), bem como todos aqueles sem rosto e dos vários ramos das Forças Armadas Portuguesasm ao serviço da Pátria. Foram mais de 8.000 que morreram em combate ao longo dos 14 anos de Guerra Colonial. Apesar de também ter estado envolvido à época, sinto um profundo respeito pelas famílias e curvo-me em sua homenagem.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Zé Alves, um fuzileiro e amigo

Falar do Zé Alves é também falar de um amigo de quem se gosta e que nos acompanha para qualquer lado. Foi do DFE4 e fez comissão em Angola (1963-65). É um dos camaradas que faz parte do grupo que se reúne com frequência em Encontros de Camaradagem e almoços da praxe: Almada, Vitorino Santos, Eu e outras vezes o Periquito e o Tony mais as respectivas mulheres. Além disso, o Alves foi um dos pioneiros do processo de criação da Associação de Fuzileiros e chegou a integrar os seus órgãos sociais, trabalhando afincadamente. Tem participado em todas as Comissões organizadoras dos Encontros do DFE4 com agrado e entusiasmo. Mas comecemos pelo princípio:
José Moreira Alves é natural de Picôto, freguesia da Batalha, distrito de Leiria e nasceu a 28 de Maio de 1939. Foi aluno da Fragata D. Fernando II e Glória.
Em 23 de Novembro de 1956, alistou-se na Armada, com a idade de 17 anos e o número de ordem 11 933.
Em 18 de Dezembro de 1958 partiu em missão para a Índia. Embarcou no paquete Pátria para integrar a guarnição do N.R.P. João de Lisboa, em missão na Índia, mas que se encontrava em reparação no Porto de Durban (África do Sul). A rendição foi assim antecipada e seguiu depois o seu destino a bordo do “João Lisboa” como 1º grumete artilheiro. Esteve em Goa, Damão e Diu, embarcado nas lanchas de fiscalização Sirius, Vega, Antares e finalmente no Aviso N.R.P. Afonso de Albuquerque.
Em Março de 1961, regressa a Metrópole a bordo do paquete Índia, via canal Suez. Uma vez no Corpo de Marinheiros foi destacado para a Escola de Artilharia e frequenta o curso atrasado do 1º grau de artilheiro, findo o qual foi promovido a Marinheiro Artilheiro.
Em 1962 foi frequentar o 3º Curso de Fuzileiros Especiais e é nomeado instrutor. Em Fevereiro de 1963 segue para Angola integrado no DFE-4, chefiando a esquadra de atiradores, composta pelo Cruz/moço de Quelfes e Álvaro Abreu.
Terminada a comissão, regressa com o DFE4 a Lisboa a bordo do N.R.P.S. Gabriel em Março de 1965.
Na Escola de Fuzileiros, após ter frequentado com aproveitamento o curso de sargentos, foi promovido a 2º Sarg.; em 1966 é nomeado para integrar o 7º Destacamento de Fuzileiros Especiais, ao comando de uma Secção, com destino à Guiné em 30 de Junho de 1966, a bordo do N.R.P. Diogo Gomes. Participou em vários operações de risco e numa delas foi atingido por uma bala tendo em consequência sido evacuado por Helicóptero para o Hospital Militar de Bissau e, posteriormente, para o Hospital da Marinha em Lisboa. Aqui voltou a ser operado - por mais de uma vez. Por proposta da Junta de Saúde Naval, foi incapacitado para o serviço activo.
O DFE-7 foi um Destacamento de eleição, distinguido colectivamente com a mais alta condecoração, e com vários louvores a nível individual, merecendo bem um tratamento especial em futuras abordagens do tema. O próprio Alves foi condecorado ao seu serviço.
Em Maio de 1971, o Alves passou à Reforma Extraordinária com o posto de 1º Sargento e ao abrigo do D L 43/76 foi considerado D.F.A.
Depois, ao abrigo da legislação vigente, promovido ao posto de Sargento - Mor.
O José Alves mora na margem Sul, no Barreiro, uma das cidades e zonas residenciais que, a par de outras, como Almada, Corroios, Santo António da Charneca, Cova da Piedade, Lavradio, Quinta do Conde, Alcochete, Coruche, Montijo, Seixal, etc , existe maior concentração de pessoal da “Briosa.”Naturalmente que tal concentração permite maiores oportunidades de encontros. Há no entanto uma forte ligação ancestral à terra natal, onde alguns têm uma segunda residência, e

daí as suas deslocações e permanências temporárias na terra onde nasceram.
Para terminar, o Alves, com a alcunha do gorila quando aluno na Fragata D. Fernando II e Glória por causa de ser tão peludo e do pacaça no DFE-4, por causa do vício da caça é um bom amigo e camarada. É uma pessoa extremamente sensível e talvez por isso bastante emotiva. Teve a sorte, diga-se merecida, de encontrar a sua cara-metade, a Rosa, que é uma mulher fantástica e um casal que se completa. Gosto muito de ambos.

Um grande abraço ao Alves e um beijinho à Rosa Álvaro














segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

E ainda...


Quem não gosta de recordar um par de maminhas tão bonitas como estas? Estas são as boas recordações de que vos falava no post anterior e que vos ofereço de boa vontade para eliminar da vossa memória as coisas feias vividas no passado, naquelas paragens.

Recordações da Guiné!





Para todos os filhos da escola que passaram pela guiné deixo aqui estas imagens para não esquecerem os tempos que lá passaram. Houve com toda a certeza bons e maus momentos. Os maus devem ser esquecidos e os bons recordados uma e outra vez. Esse é o espírito!

Desabafo e desculpas!

Não tenho contribuído muito para o desenvolvimento deste blog. Peço desculpa ao Alvaro por tê-lo metido nisto, mas a intenção era boa, é tudo o que posso alegar em minha defesa. Sinceramente esperava que de um lado ou do outro, entre os leitores do meu outro blog ou os antigos camaradas da CF2, alguém se interessaria por contribuir com qualquer coisinha para ajudar a manter «a loja» em funcionamento. Parece que as minhas esperanças saíram goradas e, como é sabido, não tenho meios para alterar isso. Prometo ir aparecendo, de vez em quando, para ajudar, mas não quereria tomar as rédeas deste blog, para não correr o risco de desatender o outro. Como soe dizer-se - não podes servir a dois senhores ao mesmo tempo. Contudo, como a esperança é a última a morrer, pode ser que ainda vejamos aparecer algum filho da escola com vontade de ajudar. Esperar podemos sempre.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Lisboa, o marujo, a varina e o fado

Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade a navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até a brisa que corre me sabe a sal. (José Cardoso Pires. Lisboa – Livro de Bordo)
Tinha prometido a mim mesmo que trataria do tema cidade de Lisboa, sobretudo porque associada ao marujo, às varinas e ao fado; às zaragatas de faca e alguidar, às mulheres apaixonadas, ardidas pelo ciúme e pelo desejo; as putas, chamadas mulheres da vida, enamoradas dos chulos; aos Bairros de Alfama, Madragoa, Mouraria e Bairro Alto; aos cinemas populares, de sessão contínua, a vinte e cinco tostões… Lisboa onde circulava, com fartura, os carros eléctricos e autocarros da Carris e ainda os táxis bicolores de verde e preto. Lisboa das casas de pasto onde eram servidas refeições completas – almoços ou jantares - a onze escudos. Lisboa do fado vadio a troco das farras e copos de vinho a cinco e a oito tostões; Lisboa do carapau e da sardinha mais o pregão das varinas e do ardina; Lisboa do bacalhau na rua do Arsenal e das pataniscas na rua do Coliseu; Lisboa do café e do bagaço, do comércio e da indústria, do operário e do eléctrico das oito.
Lisboa que depois do 25 de Abril se democratizou; Lisboa cujas Tabernas e Casa de Pasto “foram à vida” porque eram anti-culturais e um povo ignorante tinha de se emancipar para e igualar os países da Europa civilizada. Não podiam andar por aí a beber copos de vinho como quem bebe água! Até os pequenos – burgueses, como eu, julgavam certa tal teoria. Mas enganaram-se: as casas de pasto transformaram-se em «Tascas» e o bacalhau, prato dos pobres, passou a ser moda das classes mais abastadas. Subiu de preço e de estatuto. Alfama e Bairro Alto, bairros very tipical de Lisboa são frequentados pela elite intelectual de então e desde então, incluindo a classe política e os nossos adoráveis demagogos e democratas … O vinho também passou a ser apreciado… O fado vadio que deixou de andar por aí…
Mas do que eu gosto mesmo é de Lisboa do Sebastião Opus Night de José Cardoso Pires (escritor já falecido). Este militante do Whisky, nos bares das redondezas, que passava a vida prevenir que Lisboa é toda em trompe-lóeil. Este nunca na vida descera à rua antes de o anunciar da noite, com uma única excepção: ida ao funeral porque os cemitérios encerravam às cinco; segundo o autor do livro, o Opus Night continuava a protestar porque Lisboa, à luz do Sol, não serve para mais nada senão para baralhar a vista. Penso que esta personagem, narrado no Livro de Bordo de Cardoso Pires, era uma óptima companhia para o moço de Quelfes.
Sobre Lisboa, o marujo, a varina e o fado, fiz um pequeno filme onde tive de introduzir algumas imagens relacionadas com marujos que se ajustassem ao fim em vista. Como a minha figura não se adequava (certinho demais…), recorri a dois trios de marujos que se reportam, no tempo, aos finais dos anos cinquenta e meados dos anos sessenta. Espacialmente, não deviam estar muito longe do local onde ambas as fotos foram tiradas: provavelmente Rossio e Rua do Arsenal. Quanto a idade, eram todos jovens (faixa dos vinte anos) e, finalmente, a coincidência total dos postos: todos tinham a categoria de marinheiros. Daí a semelhança que encontro nas duas fotos. Um composto pelos marinheiros Ludgero (Piçarra) e o outro pelo filho da escola Carlos (Tintinaine). Espero que gostem. Antes porém, deixo qui esta pequena estrofe do poema Gaivota de Alexandre O´Neil:
Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

A imagem e o silêncio das palavras



Estes amigos - camaradas de outrora - são o José Afonso Neto (14128) e Pedro Serrano Baptista (16129). Fizeram ambos a 1ª Comissão no DFE-4 em Angola (1963-65). Assim, as fotos a preto e branco têm cerca de 45 anos. A foto a cores foi tirada em Abril do corrente ano, na Escola de Fuzileiros, por ocasião do 3º encontro. Não sei quem terá sido o autor da fotografia, talvez o Almada, mas sei que me impressionou bastante. É como se a cumplicidade fosse o silêncio das palavras… Ambos seguiram a carreira militar, sofreram as mazelas da Guerra e cumpriram honrosamente o seu dever. Findaram as comissões. Dever cumprido!







quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Natal em Lisboa

Poder-se-á perguntar qual a razão da escolha deste título “ Natal em Lisboa” e não outro, como por exemplo: Natal no Porto, Coimbra, Beja, Faro ou Portimão, Madeira ou Açores. Simplesmente porque durante mais de trinta anos a minha actividade profissional foi em Lisboa, capital do País, e uma das cidades mais bonitas do mundo. Depois porque gosto muito dela e finalmente porque não há marujo nenhum português que a não conheça (um dia destes tratarei deste tema). Pois bem.
Cá por Lisboa faz algum frio, sobretudo à noite. Mas Lisboa agasalha-se e vem para a rua fazer compras. Mostra as montras enfeitadas nas avenidas, lojas e centros comerciais - mais do que o costume - e os arcos, festivamente iluminados, a percorrer as ruas da cidade ao compasso das músicas natalícias. Do Areeiro a Almirante Reis, Martim Moniz e Praça da Figueira; de Alvalade à da Praça de Londres; do Campo Grande, Avenida da Liberdade à baixa Pombalina: Restauradores, Rossio e Terreiro do Paço; do Chiado ao Largo do Camões; Príncipe Real ou de Alfama, Graça e Costa do Castelo …
Agora os motivos são outros: É a celebração do Natal e o peso da sua tradição cristã. Seja por fé, por força da história e dos costumes, da cultura ou qualquer outra razão, a verdade é que esta quadra festiva é vivida pelos crentes e não crentes de uma maneira diferente. Não sei se sugestionado pelo seu simbolismo, mas sinto que se respira uma atmosfera diferente! Há uma tranquilidade suave e uma sensação de paz interior agradável, reconfortável. O céu, um pouco enevoado, parece ficar mais perto de nós, tem uma cor própria que não é habitual ver-se noutras ocasiões. Depois, o nosso estado de espírito é de uma leveza suprema, e as recordações do passado, gratas lembranças que avivam a nossa memória presente.
Mas, a uma esquina qualquer da cidade, damo-nos com homem das castanhas, às voltas com o assador: com mais uma sacudidela daqui e umas tantas pitadas de sal dali; mais uns abanões no ateador e mais castanhas a estalarem no calor da brasa. Aqui, lembrei-me dos sem-abrigo e da canção do “homem das castanhas” na voz inconfundível de Carlos do Carmo:

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.

Aos meus amigos e famílias, visitantes deste blogue, onde quer que estejam,
Desejo a todos um Feliz Natal

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Imagens com música

Há uns anos, já largos, um amigo meu, colega de trabalho e estudante, me dizia que a vida sem música seria um erro! Concordei inteiramente. O facto de termos estado envolvidos numa Guerra em África não nos impossibilitou de aproveitarmos os tempos livres da melhor forma. A música era uma dessas possibilidades visto que havia sempre um transístor ( rádio a pilhas) disponível entre o pessoal. A imaginação também não nos faltava, ou não fossemos nós jovens e fuzileiros.
As imagens que se seguem foi uma tentativa de dar colorido a um passado que existiu ainda ontem!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Fotos a cores. Inéditos do Júlio

O Júlio Santos fez a 1ª comissão no DFE4 em Angola e desde dessa altura que revelava o gosto pela fotografia. Penso que terá gasto as economias todas na compra de equipamentos fotográficos sofisticados como aconteceu com a máquina de passar slides. Ainda hoje, nos encontros onde está o Júlio, a câmara está permanente activa. Esse gosto pela fotografia transmitiu-se ao filho que trabalha no ramo, num estabelecimento seu.
As fotos a cores que se seguem são material do Júlio:
Júlio Santos. Instalações Navais Ilha Cabo (INIC) Luanda.

INIC -Luanda.Sargentos Soares ( Enfermeiro/FZE) e Chamusca

Posto da Macala. Rio Zaire

Granja, Póvoa, eu e Júlio. Posto da Macala ( aproveitamentos dos tempos livres)

Granja, Júlio, eu e Martins. Posto da Macala


sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Deixa isso p´rá lá…

A cena passa-se em Vale de Zebro, como não poderia deixar de ser! Corria o ano de 1962, da graça do Senhor, e estávamos na fase da recruta ou do I.T.E. ( Instrução Técnica Elementar) no Grupo nº2 da Escola de Fuzileiros. O autor era um filho da escola cujo nome e o número não sei. Tenho dele a imagem e as representações espectaculares que diariamente eram exibidas na caserna, e que achava o máximo!
Creio que todos os alunos da recruta de Março/62, que estavam alojados na mesma Caserna do que eu (que era ampla, com três filas de camaratas: uma do lado esquerdo, outra do lado direito e uma ao centro) se lembram. Ao fundo ficavam as casas de banho com meia-dúzia de lavatórios à esquerda e uns tantos chuveiros compartimentados à direita. Entre as camaratas havia os cacifos individuais (corpo dúplo) onde arrecadávamos os nossos apetrechos. Quando abríamos a sua porta deparávamos com um espelho fixado no seu interior, quase ao nível dos nossos rostos. Toda esta descrição - distorcida quanto possível pela memória - para uma coisa de pouca monta: expor uma dúvida. Qual a identificação do barbeiro em questão, filho da escola?
Ora bem. Um dos nossos exercícios físicos era o boxe ministrado pelo cabo Ferraz, já aqui lembrado. Fazia parte da técnica de aprendizagem exercitar a movimentação dos braços e simultaneamente imaginar um adversário à nossa frente e desviarmo-nos dos seus seus golpes, abanando e abaixando cabeça par um dos lados, e tentá-lo atingir de seguida : esquerda, esquerda-direita-esquerda…O Barbeiro (nome por que ficou conhecido o escola por ter sido colocado na Barbearia da Escola), levava muito a sério o boxe e aproveitava os tempos livres para treinar sòzinho, seguindo um ritual muito pessoal: adorava ver-se ao espelho a treinar os seus próprios movimentos, qual Cassius Clay no seu melhor ( esquerda, esquerda-direita)… De vez em quando, parava um pouco e fazia músculo com os braços, e apalpava-os com as pontas dos dedos de uma das mãos, ao mesmo tempo que cantava a célebre canção brasileira da altura:

Deixa que digam

Que pensem, que falem

Deixa isso prá lá

Vem prá cá

O que é que tem?

E eu não tô fazendo nada

Nem você também

Faz mal bater um papo

Assim gostoso, com alguém?
Deixa que digam

Que pensem, que falem…















Agora a dúvida. Qual dois era o barbeiro à época na Escola de Fuzileiros? – Francisco A Ferreira/16 573 (à esquerda) ou Joaquim C. Pinto/16582, ou nenum deles? - Alguém sabe?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

IV-Frei Paiva Boléo. Em nome do pai…

Frei Paiva Boléo
Historicamente, Jesus nasceu na Palestina na época do imperador romano Augusto ( sec.I). Mais concretamente em Nazaré por volta do ano 750 da fundação de Roma, embora São Mateus tenha afirmado que Jesus nasceu em Belém. Parece não haver dúvidas que Jesus existiu à face da Terra. Já Jesus o divino, que desceu à Terra sob a forma humana permanente de Deus para nos salvar, é que não há consenso. Também na religião Oriental, Crixna é uma das encarnações do Deus Vixnu, dos hinduístas. Segundo Úrsula King, professora de Religião na Universidade de Bristol, existem paralelismos entre a Natividade de Jesus e a Natividade de Crixna. Crixna não foi concebido de uma forma vulgar. Tal como Jesus, nasceu de Deus e de uma mulher mortal. Na história de Crixna, Vixnu implantou um dos cabelos no ventre da mãe de Crixna. Ambos os nascimentos foram rodeados de acontecimentos milagrosos. Estes nascimentos de figuras divinas são comparáveis a outras religiões. Por exemplo o nascimento de Buda foi acompanhado de sinais prodígios. Há um tipo de revelação, história contada de Crixna em criança quando esta brincava na lama e a sua mãe adoptiva disse: “Abre a boca. Comeste lama”. Crixna obedeceu e a mãe adoptiva viu todo o universo lá dentro. Segundo S. Lucas, o Menino Jesus fugiu aos pais e foi ensinar os doutores da Lei do Templo de Jerusalém. A mãe Maria, em vez de se sentir orgulhosa porque “todos os que o escutavam ficavam admirados com a sua sabedoria e as suas respostas”, repreendeu-o por se ter perdido e tanto ter preocupado José e ela própria.
1ª comunhão de Álvaro Dionísio
O que me fascina em Jesus
Desde miúdo que ouvi falar no menino Jesus e guardo dele a imagem de uma criança loira, de olhos azuis, a limpar o nariz com o braço esquerdo. Esta figura sempre me fascinou, aliás como ainda me fascinam as crianças. A escola primária, a catequese, a missa de Domingo, as festas e romarias; os casamentos, baptizados e os funerais. Ainda os meses de Maio e de Maria em que se rezava o terça (novenas – acção de graças), penso que os adultos e em particular as mulheres (a minha avó rezava o terço na cama todos os dias antes de se deitar: não tinha vagar para ir a missa). Não me lembro de ver os homens a rezar o terço. Todas estas liturgias estavam presentes o nome de Jesus e de Cristo.
Também se escreveram poemas muito bonitos sobre o menino Jesus. Lembro-me especialmente de Fernando Pessoa; e porque gosto muito, não resiste em transcrever uma pequena parte do seu poema “o menino Jesus”:
Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
……
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
……
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
….
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
…………….
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

O menino Jesus cresceu como todas as crianças e tornou-se adulto. Começou a pregar. Segundo as fontes históricas: Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João; as obras de Filó e Josefo, Apócrifos do Antigo Testamento, S. Paulo, citadas por investigadores, filósofos e teólogos.
Cristo devia ter um puder persuasivo muito forte nas populações que o ouviam e daqueles que o seguiam como um verdadeiro líder espiritual: os apóstolos, companheiros de viagem. Só de facto uma pessoa muito inteligente, culta e convicta da sua fé poderia arrastar multidões. Fala-se também de Cristo como um fazedor de milagres. Francamente, preferia não lhes chamar milagres uma vez que esse é o nome atribuído pelos Evangelhos. Talvez chamar-lhes lendas ou mitos, ainda que estas expressões possam querer significar uma posição mais próxima da
verdade, da verdade que possamos alcançar. Mas sempre me deliciei ouvir contar esses “milagres”.
Acho que o primeiro deles é as Bodas de Canaã, na Galileia, em que Jesus transforma a água em vinho. É um milagre que parece revelar que a Igreja primitiva não considerava Jesus um moralista tacanho, um puritano que estava contra o divertimento como padres da minha época faziam crer. É pois a parte humanista de Jesus, como homem sujeito as fraquezas e tentações, que mais me encanta. Não sei Jesus dormiu com Maria Madalena ou foi seu amante, casou com ela ou até teve filhos, qualquer destas versões, admitidas pelos investigadores históricos só aumentam a minha admiração por Jesus. Se Jesus é Filho de Deus, feito Homem, que sofreu e foi crucificado na cruz, morreu e ressuscitou para redimir a humanidade dos seus pecados, é algo que só a fé acredita. Mas há uma verdade: sem Jesus o cristianismo não existiria.
Em nome do pai, do filho e do espírito santo. Àmen!