Em 31 de Dezembro de 1962 foi encerrado, ordens do António de Santa Comba e do Cardeal das Cerejas, o negócio mais antigo do mundo no Bairro Alto, a prostituição. Dia triste para muita gente, a começar por aquelas que dali tiravam o seu sustento e das suas famílias, mas também para os muitos frequentadores daqueles locais, a começar pelos nossos camaradas de alcache e boné branco.
Felizmente, os meus primeiros meses na Marinha e o meu baptismo de Lisboa puderam ainda contar com o Bairro Alto em pleno funcionamento e disso guardo algumas memórias na minha bagagem. Mas não é desse bairro que vos quero falar hoje. O Bairro Alto que hoje vos vou descrever nasceu em 1964, entre a recruta de Março e a de Setembro, vindo esta última a tirar os três ao «mega-empreendimento» que nasceu do outro lado do "Lodo".
O lodaçal que se estendia desde a estrada nacional que liga Coina ao Barreiro até ao estuário do rio Coina, foi cortado ao meio por uma estrada de paralelos a unir as duas metades da Escola que, de repente, passava para o dobro do tamanho e capacidade para albergar 1500 militares. A ladear essa estrada foram montados postes de iluminação e neles pendurados altifalantes para permitir que as formaturas a percorressem marchando cadenciadamente ao som da Caixa que um Marinheiro Clarim fazia soar na Parada. Uma das coisas de que me lembro ainda era da confusão criada sempre que os marchantes deixavam de ouvir um altifalante e passavam a ouvir o seguinte, com um ligeiro atraso na propagação do som, obrigando toda a gente a acertar o passo.
Formatura ás 5 da tarde, na Parada, leitura da Ordem do Dia e toca a marchar até ao Refeitório, primeiro e maior edifício do Bairro Alto, onde se seguia o jantar, servido muito cedo para permitir uma nova formatura, a das Licenças, logo a seguir.
Uma de muitas recordações que ocupavam a minha mente enquanto deambulava pelos espaços que há muitos anos não percorria, mas que permanecem quase inalterados. Não fora o edifício construído ali onde antigamente tínhamos o nosso Campo de Futebol e poder-se-ia dizer que tudo continuava na mesma.
Enquanto fazia a digestão das duas sardinhas e do pedaço de entrecosto que me tinham servido ao almoço, as minhas pernas foram-me levando na direcção do tal Bairro onde passei os seis meses mais marcantes da minha vida na Marinha, passados em Portugal Continental, na Primavera e Verão de 1965. Foi o período que mediou entre as minhas duas comissões, ambas feitas em Moçambique. Período em que foi preciso dizer adeus a muitos camaradas que me tinham acompanhado até àquela data e travar conhecimento com outros que me acompanharam dali em diante. Período de namoros e engates que pouco rasto deixaram na minha memória de tão fugazes que foram.
Muitas, mesmo muitas lembranças, algumas delas tão particulares que não podem ser partilhadas com ninguém e ficarão para sempre escondidas nas sombras desse passado já muito distante. Os altos muros que nos tentavam isolar do mundo lá fora e o desafio que representavam para nós e nos levavam a saltá-los sempre que havia uma oportunidade. As «Misses» do outro lado do muro, as saídas sem licença, as idas até Palhais só para deitar o olho a alguém do sexo oposto, um turbilhão de memórias impossível de descrever, mas que sei ser entendido por quem por lá passou como eu.
E para não vos fazer sofrer mais, aqui vai a reportagem, tipo Virgílio Miranda, daquilo que os meus olhos viram e hoje está completamente votado ao abandono.