Porque as politiquices vão azedando o estômago e criando dissabores entre amigos (?), deixo-vos uma história para vos retemperar o espírito e recompor a vossa esperança de homens maduros, capazes de crivar as sementes para que fiquem limpas das impurezas que as acompanham desde a colheita… e também para desviar os vossos caprichos e atenções para actos ou coisas mais proveitosas e adequadas às circunstâncias do momento actual.
Vejamos: Neste mundo egoísta, de indiferença cruel, de falta de atenção aos problemas difíceis dos outros, é admirável e motivo de alegria, verificar uma atitude generosa e simpática que vivi certo dia, algures num pacato local mas endiabrado como podereis observar.
Como católico dirigi-me a uma celebração litúrgica vespertina, numa paróquia, onde por razões óbvias me encontrava depois de uma reunião.
No fim da celebração encontrei um trânsito caótico desviado através de um bairro, em virtude de obras nas ruas circundantes. Era já noite escura e não consegui ler as placas indicadoras de desvios. Entrei numa rua errada e segui tentando encontrar o caminho que desejava, mas emaranhei-me em ruas desconhecidas e complicadas. Perguntei a várias pessoas, mas ninguém me dava uma explicação clara para eu sair dali. Alguns, desconfiados pela minha aparência de “ladrão”, nem resposta me davam.
Quase me atrevia a ligar para o 112. Tal era a situação… Parei numa rua mais ampla. Atrás de mim parou um carro. Sai e pedi informações aos ocupantes dessa viatura. Dentro um casal e uma criança. Perguntei:
Podem fazer o favor de indicar-me como posso ir para tal parte? O condutor, olhou-me, mirou-me, pensou uns momentos e disse-me: - É difícil, mas eu vou indicar-lhe. Siga-me: Passou o carro para a frente do meu e comecei a segui-lo com muita atenção. Andou, andou, atravessou bairros e eu olhando atónico para aquela eternidade… Depois de alguns minutos de marcha, chegou ao local que eu lhe pedira e que eu já conhecia melhor. Encostou o carro ao lado da rua e eu parei ao lado dele.
- Muito obrigado, disse-lhe eu, levantando o braço em sinal de gratidão, não sem ouvir umas fortes buzinadelas que me fizeram lembrar o campeonato do mundo, na África do Sul. Ele sorriu, levantou o braço, correspondendo ao meu gesto e cada um seguiu o seu destino.
Fui a pensar, feliz: - Ainda há gente boa neste mundo materialista e cheio de questiúnculas. Fiquei com pena por não saber o nome e endereço da pessoa tão bondosa, para lhe agradecer por escrito aquela prestimosa ajuda maior do que a informação que lhe solicitei. (Como fazem falta uns cartõezitos de visita e então a Internet para ocasiões destas?)
Também aquele desconhecido deve ter regressado a casa de consciência jubilosa, como sentimos quando ajudamos alguém a ser feliz.
Contei este episódio, porque os bons exemplos são frutuosos. É de louvar ao Senhor, que nos oferece flores desta beleza em caminhos inesperados e áridos da vida no meio do longo deserto da agonia e do desespero…