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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Lisboa, o marujo, a varina e o fado

Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade a navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até a brisa que corre me sabe a sal. (José Cardoso Pires. Lisboa – Livro de Bordo)
Tinha prometido a mim mesmo que trataria do tema cidade de Lisboa, sobretudo porque associada ao marujo, às varinas e ao fado; às zaragatas de faca e alguidar, às mulheres apaixonadas, ardidas pelo ciúme e pelo desejo; as putas, chamadas mulheres da vida, enamoradas dos chulos; aos Bairros de Alfama, Madragoa, Mouraria e Bairro Alto; aos cinemas populares, de sessão contínua, a vinte e cinco tostões… Lisboa onde circulava, com fartura, os carros eléctricos e autocarros da Carris e ainda os táxis bicolores de verde e preto. Lisboa das casas de pasto onde eram servidas refeições completas – almoços ou jantares - a onze escudos. Lisboa do fado vadio a troco das farras e copos de vinho a cinco e a oito tostões; Lisboa do carapau e da sardinha mais o pregão das varinas e do ardina; Lisboa do bacalhau na rua do Arsenal e das pataniscas na rua do Coliseu; Lisboa do café e do bagaço, do comércio e da indústria, do operário e do eléctrico das oito.
Lisboa que depois do 25 de Abril se democratizou; Lisboa cujas Tabernas e Casa de Pasto “foram à vida” porque eram anti-culturais e um povo ignorante tinha de se emancipar para e igualar os países da Europa civilizada. Não podiam andar por aí a beber copos de vinho como quem bebe água! Até os pequenos – burgueses, como eu, julgavam certa tal teoria. Mas enganaram-se: as casas de pasto transformaram-se em «Tascas» e o bacalhau, prato dos pobres, passou a ser moda das classes mais abastadas. Subiu de preço e de estatuto. Alfama e Bairro Alto, bairros very tipical de Lisboa são frequentados pela elite intelectual de então e desde então, incluindo a classe política e os nossos adoráveis demagogos e democratas … O vinho também passou a ser apreciado… O fado vadio que deixou de andar por aí…
Mas do que eu gosto mesmo é de Lisboa do Sebastião Opus Night de José Cardoso Pires (escritor já falecido). Este militante do Whisky, nos bares das redondezas, que passava a vida prevenir que Lisboa é toda em trompe-lóeil. Este nunca na vida descera à rua antes de o anunciar da noite, com uma única excepção: ida ao funeral porque os cemitérios encerravam às cinco; segundo o autor do livro, o Opus Night continuava a protestar porque Lisboa, à luz do Sol, não serve para mais nada senão para baralhar a vista. Penso que esta personagem, narrado no Livro de Bordo de Cardoso Pires, era uma óptima companhia para o moço de Quelfes.
Sobre Lisboa, o marujo, a varina e o fado, fiz um pequeno filme onde tive de introduzir algumas imagens relacionadas com marujos que se ajustassem ao fim em vista. Como a minha figura não se adequava (certinho demais…), recorri a dois trios de marujos que se reportam, no tempo, aos finais dos anos cinquenta e meados dos anos sessenta. Espacialmente, não deviam estar muito longe do local onde ambas as fotos foram tiradas: provavelmente Rossio e Rua do Arsenal. Quanto a idade, eram todos jovens (faixa dos vinte anos) e, finalmente, a coincidência total dos postos: todos tinham a categoria de marinheiros. Daí a semelhança que encontro nas duas fotos. Um composto pelos marinheiros Ludgero (Piçarra) e o outro pelo filho da escola Carlos (Tintinaine). Espero que gostem. Antes porém, deixo qui esta pequena estrofe do poema Gaivota de Alexandre O´Neil:
Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
video

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