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domingo, 5 de dezembro de 2010

A Despedida...

O homem tinha dito:
- Seja franco, doutor!
O médico saiu detrás da secretária, vagarosamente, pôs-lhe uma mão sobre o ombro e quase sussurrou. 
- É cancro. 
- Quanto tempo, doutor? - Perguntou o homem sem o olhar, mas com aquele grau de cumplicidade no tom de voz que antecipava que ambos sabiam bem do que estava a falar. 
- Um ano, ano e meio, no máximo - respondeu o médico.
Saiu do consultório devagar, numa confusão de ideias e de sentimentos, observando aqueles com quem se ia entrecruzando com uma sensação danada de inveja e, ao mesmo tempo, de raiva. «Porquê eu?!», perguntava, repetida e impessoalmente, sem ter propriamente entidade competente a quem dirigir a questão.
Caminhou longamente, lentos e penosos quilómetros, interrogando-se sobre se devia ou não partilhar este segredo com mais alguém ou se ele devia ficar circunscrito apenas ao seu mutismo e ao segredo profissional do clínico. Esteve num café, que acabou por abandonar irritado com o ruído das vozes, e, acima de tudo, com os risos e as discussões estúpidas. «Ano e meio», pensava nessa altura, «ou antes, um ano, porque se sobrar alguma coisa faço férias». Na pequena praça onde ficava o seu prédio tomou a decisão - não diria nada a ninguém e ocuparia o tempo que lhe restava a ser aquilo que em criança desejara para quando fosse grande. A família, ao princípio, não estranhou, nem protestou, quando vendeu a sua quota no escritório. Toda a gente pensou que decidira antecipar a reforma, gozar os rendimentos, cortar com uma vida de trabalhos e relações que lhe assegurara mais do que suficiente para viver medianamente.
A grande surpresa foi quando, algumas semanas mais tarde, anunciou que iniciava, no dia seguinte, a sua actividade de motorista de praça.
- O teu pai ensandeceu! - Comentou sua mulher para o filho do casal. 
Imperturbável, durante meses, correu pelas ruas da cidade, conheceu o que desconhecia mas adivinhava, riu, foi quase feliz e chegou mesmo a fazer uma viagem, com emigrantes, para França, num serviço que lhe apareceu. 
Um dia, sem dizer nada a ninguém, deixou-se ficar em casa. 
- Não vais trabalhar? - Perguntou a mulher. 
- Despedi-me - anunciou sem mais comentários. 
Durante o resto da semana leu e foi ao cinema, durante as tardes, em casa, sem palavras.
Uma manhã, ficou excitado com a leitura do jornal. Vestiu-se rapidamente e saiu. Não almoçou em casa nesse dia e, à tardinha, quando regressou, entregou seis bilhetes para o circo à mulher e disse: 
- Gostava que amanhã fosses à minha estreia como palhaço. Podes levar quem quiseres.
Nessa noite, mulher, filho e nora reuniram-se em casa destes últimos, preocupados com o que se passava. 
- Depois da vergonha do táxi, isto! - Desabafava a mulher.
- Mas que necessidade tem ele de andar a fazer estas figuras? - Perguntava o filho. 
- Nenhuma, enlouqueceu! - Comentava a nora. 
Só os netos riram e bateram palmas, contentes, perante o constrangimento geral. 
- Ena, pá! Bestial! O avô é palhaço... 
Enquanto a companhia esteve na cidade trabalhou todas as noites. Segurava, nos intervalos, a escadinha de corda da equilibrista sempre que esta tinha de subir ao arame e, uma vez por outra, foi-se abaixo, entre dois números - uma ocasião por causa das dores, as restantes por a falta de tempo lhe apertar o peito. Ninguém deu por nenhuma dessas crises e, embora sem talento especial, não fazia mal o seu papel de palhaço pobre, dedilhando aceitavelmente uma viola nas partes musicais. 
Por mais de uma vez, depois de o circo partir, teve de ficar de cama, pretextando achaques ligeiros, para se refazer das dores. Quando Dezembro chegou, deu fortes sinais de inquietação e, uma manhã, desembrulhou, no regresso a casa, uma peça de tecido vermelho e um rolo de pelúcia branco e, virando-se para a costureira da família, que todas as quintas-feiras costurava na saleta, ordenou. 
- Vai fazer-me um fato de Pai Natal! 
Morreu, sem se despedir, no dia 26 de Dezembro, ao princípio da tarde. Sobre a cama e a sorrir para o fato de Pai Natal! Deixou inconsolável a viúva, um filho engravatado, uma nora estúpida e um par de netos que o adoravam. Deixou, também, uma conta bancária a descoberto.

2 comentários:

  1. Pensamento positivo, após um primeiro choque ao receber a noticia da doença, merecia viver mais tempo, mais não fosse para fazer a felicidade dos Netos.
    Um abraço
    Virgílio

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  2. Por alguma razão não é permitido aos humanos saber a hora prevista para a sua morte. Deus (a entidade superior que supervisiona isto tudo) sabe o que faz e não dorme em serviço.
    Já imaginaram a paranóia que seria se todos soubessem isso e começassem a viver em função do tempo que lhes restava de vida?
    Neste caso particular o atingido pela revelação soube levar a sua cruz ao calvário, mas não acredito que haja muitos que sejam capazes de reagir da mesma maneira.

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